Estratégia ·
Toyota - Along the Way
Olhando pelo lado estratégico, as mudanças podem ser motivadas tanto por fatores de dentro quanto de fora das organizações. No ritmo acelerado em que o mundo se transforma hoje, essas transformações costumam acontecer de repente, trazendo rupturas que nem sempre dão tempo para planejamento ou preparação.
Embora a gente costume associar esse tipo de mudança a empresas, elas também acontecem no nosso dia a dia e na vida das nossas comunidades.
Imagine uma população forçada a abandonar suas terras por conta de um desastre natural extremo. Já vimos isso ocorrer. O cenário é de urgência. As pessoas precisam abandonar rapidamente o local. Nessas condições, o que é essencial levar na bagagem? O que deixar para trás não cabe mencionar nessa narrativa.
A capacidade de cada um conta muito na hora de escolher o que vai na mala. Essa imagem ilustra bem a imposição de uma onda de mudanças que, de repente, entra porta adentro de uma empresa. Para continuar no jogo e se manter competitiva, o que ela precisa deixar para trás e o que, do mesmo modo que habitantes de uma comunidade, deve priorizar em sua bagagem?
Encontrar um novo pedaço de terra é a parte fácil, difícil é o desafio de reconstruir o sentimento de pertencimento e a confiança no futuro.
O artigo de Katsuki Aoki, publicado no Strategic Management Journal, traz uma lição valiosa sobre adaptação e competitividade no mercado. Todos conhecemos a resiliência dos povos orientais e o seu profundo respeito pelos valores e pela ancestralidade. Isso fica muito claro no modelo de gestão das empresas de lá: mesmo se adaptando ao mundo moderno e competindo com o Ocidente, elas nunca deixam de lado as raízes que sustentam o negócio.
Aoki mostra uma lição de sobrevivência valiosíssima. Entre os anos 1990 e 2000, a indústria automobilística foi sacudida pela febre da modularização e por uma busca implacável por redução de custos. Concorrentes diretos da Toyota, como a Nissan, reagiram adotando estratégias puramente de mercado: romperam com fornecedores históricos, fecharam fábricas e focaram apenas no imediatismo. O resultado foi um ganho financeiro rápido, mas que cobrou um preço alto na qualidade e na inovação a longo prazo.
A Toyota estava diante do mesmo dilema estratégico, mas em vez de simplesmente copiar a concorrência, ela usou seus valores históricos, consolidados no famoso documento The Toyota Way 2001, como filtro de decisão e norte estratégico. Ao lançar o programa CCC21, que exigia uma redução agressiva de 30% nos custos das peças, a liderança se recusou a esmagar seus parceiros comerciais ou abrir mão das pessoas. Em vez disso, integraram as novas exigências do mercado aos pilares da marca: a melhoria contínua (kaizen) e o respeito humano. A Toyota mudou seus processos, mas manteve intacta a sua essência. O resultado prático dessa consistência foi uma vantagem competitiva sustentável e níveis de qualidade muito superiores aos dos rivais nos anos seguintes.
O caso da Toyota deixa claro que, em tempos de mudanças profundas, a segurança não está em congelar o negócio no tempo, o que é impossível, mas na capacidade de atravessar a transformação sem perder suas referências essenciais. Valores organizacionais não são conceitos abstratos para emoldurar na recepção; eles são ferramentas reais de sobrevivência. São eles que ditam o que deve mudar e, mais importante, o que deve se manter intacto para garantir o futuro do negócio.
Muitas empresas hoje estão no meio de suas próprias transições forçadas, tontas com a velocidade do mercado e correndo o risco real de perder o sentido e a identidade. O grande desafio estratégico passa a ser o resgate, a preservação e a aplicação prática desses valores históricos no processo de decisão. É isso que permite descobrir o que realmente precisa ser levado na bagagem, garantindo que a mudança não apague aquilo que dá sustentação e propósito ao negócio. Em um mercado onde tudo muda o tempo todo, a maior vantagem competitiva é descobrir o que deve permanecer. E desapegar do que não serve mais.
Referências
- Aoki, K. (2021). The Toyota Way 2001 and the challenge of modularization: A study on competitiveness and adaptation in the automotive industry. Strategic Management Journal.